Arte em Goiânia

Julho 14th, 2009 de Patrícia

porao - porao

Porão, 2009, Patrícia Ferreira, fotografia

Ao falar sobre a arte na primeira metade do século XX, Eric Hobsbawn, em A Era dos Extremos (Companhia das Letras, 1995), enfatiza o momento em que a arte foi substituída pela idéia da diversão de massa. Agora, no século XXI, essa fórmula aparentemente virou regra. É isso que vemos nos “grandes” eventos artísticos que chegam à Goiânia ou que são produzidos pelas “autoridades” locais.

Um exemplo disso foi a exposição “Picasso: paixão e erotismo”, carro chefe da edição 2007 do Circuito Cultural Banco do Brasil. Com essa exposição, o Centro Cultural Oscar Niemeyer foi tomado por uma procissão de pessoas que lotaram o local. Parecia até uma espécie de ritual religioso e Picasso era o ícone no altar. Não é à toa que Affonso Romano Sant’Anna, no livro Desconstruir Duchamp (Vieira & Lent, 2003), associa os eventos da arte contemporânea brasileira à religião, nos seguintes termos:

A ‘arte contemporânea’ se confunde com misticismo e religião: um diálogo com o ausente, mediado pelo ‘artista’ (crítico e curadores) como sacerdotes de um credo. Na religião há de ter fé. Em relação às obras contemporâneas, há que ‘acreditar’ nas intenções do artista (SANT’ANNA, 2003, p. 24).

Mas não se trata apenas de acreditar nas intenções do artista, deve-se acreditar também nas intenções de todos aqueles envolvidos no processo de mediação do ato criativo, sobretudo, os críticos de arte, curadores e agentes culturais especializados.

Nessa exposição de Picasso, os anúncios diziam que se tratava de obras pertencentes “à Coleção Píer Paolo Cimatti […] formada por gravuras originais do artista espanhol”. Como se sabe, Cimatti foi secretário particular de Picasso. Numa entrevista com escultora Maria Guilhermina, ela comentou que as gravuras que compunham a exposição eram cópias descartadas por Picasso. Ou seja, nem mesmo com a reprodutibilidade técnica, intrínseca ao processo da gravura, essas obras poderiam ser consideradas originais. Elas compunham, na verdade, o lixo do artista. A grande “sacada” do ex-secretário de Picasso foi ver que o artista tinha o toque de Midas: tudo o que tocava virava ouro.

Amarrados à exposição de gravuras de Picasso, pelos laços do Circuito Cultura do Banco do Brasil, estavam também shows, como o “Acústico MTV” e a leva daqueles mesmos cantores goianos que sempre estão presentes em todo e qualquer evento que acontece na cidade. Enfim, uma série de entretenimento barato que banalizou todo o evento.

Acho que eventos como o Circuito Cultural Banco do Brasil podem ser muito legais, mas têm que ser mais honestos com o público, especialmente tendo em pauta o objetivo de “proporcionar aos participantes um pouco mais de conhecimento sobre arte e cultura”. Diversão é algo bastante saudável para o ser humano, mas, talvez, pelo surgimento de leis duvidosas de incentivo à cultura, toda forma de entretenimento acaba travestida de arte.

Infelizmente, durante o Circuito Cultural Banco do Brasil, aconteceu, no MAG (Museu da arte de Goiânia), a exposição “A Escrita Chinesa: do ideograma ao computador”, que, apesar de modesta, foi super interessante e informativa. Como não poderia deixar de ser, essa exposição foi ofuscada pelo brilho do C.C.B.B.

Entre erros e acertos, o MAG tem contribuído muito com a arte em Goiânia. Nesse percurso do MAG, eu me lembro de uma exposição de reproduções de obras impressionistas. As reproduções eram péssimas, as cores, as proporções, as molduras, a orientação dos monitores etc., tudo ajudava a descontextualizar o Impressionismo. Tive a oportunidade de conversar com uma “autoridade” da área artística da cidade sobre essa exposição e pude dizer a essa pessoa que o dinheiro público teria sido muito melhor aproveitado se as crianças das escolas de Goiânia tivessem sido levadas até a feira livre (que acontece duas vezes por semana na rua ao lado do museu) para observar o reflexo da luz sobre as frutas, as verduras entre outros objetos presentes no local. Essa pessoa até concordou comigo, mas disse que não teria professores/monitores capazes de orientar esse tipo de experiência. Só não entendi como alguém poderia falar sobre o Impressionismo, no contexto da exposição, sem ter noção das experiências ópticas tão caras aos artistas impressionistas.

Enfim, esse meu percurso foi só pra chegar num ponto: todos esses equívocos no campo das artes poderiam ser atenuados com um ensino sério de arte-educação na escola. A partir disso, teríamos uma população capaz demandar o investimento responsável do dinheiro público no setor cultural goianiense.

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