Staring at the sun
O pintor Joseph Mallord William Turner (1775–1851), apesar de ser um dos expoentes do romantismo inglês, pode ser considerado como precursor do Impressionismo e, também, como o primeiro pintor de vanguarda da história. Isso, devido ao tratamento que o artista dava às cores e à luz e ao modo em que algumas de suas obras transgrediram o modelo tradicional da visão humana.
Como se sabe, até o século XIX, acreditava-se que o modelo da visão humana era análogo ao da câmara obscura. A percepção visual, a partir desse princípio, pressupunha, entre outros fatores, a posição estática e interiorizada de um sujeito observador separado do objeto observado. Estranhamente, algumas das últimas pinturas de Turner deixaram de apresentar essa costumeira distância entre sujeito e objeto.
No quadro, Light and Colour (Goethe´s Theory) – The Morning after the Deluge – Moses Writing the Book of Genesis, de 1843, por exemplo, podemos notar a experiência de um olho que olha diretamente para o sol, como se a imagem que vemos na tela fosse impressa diretamente sobre o olho do artista. Percebemos a luz do sol penetrando no olho humano e provocando uma proliferação de cores incandescentes:
As pinturas de Turner sempre foram dominadas pelo sol, mas, em suas últimas obras, o sol e o olho se fundem. A estrutura circular desses quadros mimetiza a forma do sol e, também, corresponde à pupila do olho e ao campo da retina no qual a experiência temporal da imagem se desdobra. Segundo Jonathan Crary, em Techniques of the Observer (Massachusetts, MIT Press, 1992), o confronto direto de Turner com o sol o levou à experiência de uma nova forma de subjetividade. O sol, para o artista, passou a pertencer ao corpo humano e o corpo humano a assumir o controle dos efeitos visuais causados pelo sol:
A obra Angel Standing in the Sun, de 1846, também expõe a nova consciência do artista sobre a “corporalidade” da visão, ou seja, do corpo como local de produção dos eventos cromáticos. Essa percepção permitiu com que Turner passasse a conceber seus quadros a partir de uma experiência óptica abstrata em que a visão não correspondia aos objetos do mundo exterior. A estrutura dessa obra é insistentemente circular e encerra um vórtice de pura luz dourada. Como no exemplo anterior, temos a percepção da imagem em seu desdobramento temporal no campo da retina. Isso indica não apenas a fusão do olho e do sol, mas, acima de tudo, uma revolucionária fusão entre sujeito e objeto.
Assim, os estudos de Turner deixam dois ensinamentos fundamentais para a pintura moderna do final do século XIX e início do século XX: a consciência de que a experiência visual pode ser produzida pelo sujeito independente de qualquer referente externo, e a introdução da temporalidade como um componente inseparável da visão
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