Arte e corporeidade
Derme/Verme, 1990, de Arnaldo Antunes
O corpo está sempre presente nas manifestações artísticas de Arnaldo Antunes, como ocorre no caso da poesia, da performance e da música. A própria gestualidade da caligrafia, recorrente na obra arnaldiana, apresenta irregularidades que denunciam diferentes estados do corpo humano. Antunes associa a presença do corpo na palavra manuscrita com a voz. De acordo com o poeta, “o traço é rastro de gesto, assim como a voz é rastro da presença física, que vibra no ar”.
A poesia arnaldiana está repleta de vocábulos que se referem a partes e aspectos do corpo como cheiros, secreções, vilosidades, ruídos, gemidos, espaços escuros. Essa escolha por termos banais, ou mesmo chulos, aponta uma inclinação do poeta para devorar tabus da prática poética ou, como declara Oswald de Andrade no “Manifesto Antropófago”, para uma restituição do totemismo morto na arte ocidental.
É fato que a demanda pelo corpo no domínio artístico atual é uma exigência repetitiva e obsessiva. Nos debates sobre arte contemporânea, o tema do corpo tornou-se quase inevitável, sobretudo, a partir do momento em que se passa a tratar da arte digital, como comenta Anne Cauquelin:
“Ora, e pode parecer bem estranho, mas nunca existiu mais corpo nas atividades artísticas do que na arte atual: a maioria das obras que nos são mostradas são plenamente corporais; entendemos com isso que elas se ocupam, antes de mais, do corpo […] A arte é um lugar onde se manifesta uma exigência de “imaterialidade”, ao mesmo tempo que uma exigência de corporalidade”.
Na arte contemporânea, de acordo com Cauquelin, há uma demanda pelo corpo, tanto pela mão do artista que compele o corpo para a ação, quanto para o espírito que dirige a mão, que também é corporal, e é também a inteligência sem a qual não existe prática. Na poesia de Antunes, a conjunção corpo/espírito reverbera ainda o antropomorfismo, nos termos de Oswald de Andrade, em que “o espírito recusa-se a conceber o espírito sem corpo”.
Ao corpo próprio do artista, juntam-se ainda os elementos relacionados à realidade do corpo. Em suma, chama-se corpo tudo o que se relaciona ao criador, trate-se de espírito ou matéria. Surgem, assim, obras que se ocupam, antes de tudo, do corpo, instalações que reúnem objetos íntimos do cotidiano do artista, intervenções no próprio corpo, como mutilações, próteses, tatuagens e várias outras formas de transformações do corpo, além de impressões e reproduções gráficas do corpo do artista, como ocorre no poema “Derme/Verme”, de Antunes.
No poema “Derme/Verme”, publicado no livro Tudos (1990), a presença da caligrafia parece não ser suficiente como marca da corporeidade do poeta. Nesse poema, a paranomásia Derme/Verme é construída a partir da impressão ampliada da palma da mão de Antunes, de modo que as linhas do centro da mão do poeta substituem a letra “M”.
Neste poema, de acordo com comentário de Antunes, a palavra “derme” se repete diversas vezes com formas diferentes de grafia manual. Já a palavra “verme” ocorre uma vez apenas, montada a partir de uma tipologia antiga, com sinais de deterioração. Esse contraste, segundo o poeta, transfere a questão filosófica da decomposição do corpo humano após a morte para a questão da linguagem e sua relação com os meios de produção e reprodução. A letra “M”, no entanto, não aparece na palavra “verme”, o que, além de apontar para um significado de ausência, permite a leitura do verbo “ver” e da conjunção “e”. Há ainda, no poema, sinais de deterioração sugeridos pelos fragmentos gráficos que indicam reticências. A possibilidade de leitura do verbo infinitivo “ver” e da conjunção “e”, ligados na expressão: “ver e…” indica um aspecto de inconclusão.
Arnaldo Antunes apresenta, neste poema visual, uma forte referência ao poeta Augusto dos Anjos. Segundo Jorge Luiz Antonio, a poesia de Augusto dos Anjos “transita do particular para o geral, do individual para o coletivo, do particular para o universal, do popular para o erudito, fundindo ciência, arte, filosofia, mito, folclore, poesia”. Percebe-se, desse modo, uma semelhança entre os dois poetas. Para o poeta paraibano, continua o pesquisador, o ser humano é que se decompõe antes de atingir o amadurecimento, o que faz dele uma “espécie de aborto”. Nesse processo sempre inconcluso, o único fio que uni vida-morte-vida, é o verme.
O poema “Derme/Verme, estabelece um diálogo “impresso” com a linguagem poética de Augusto de Anjos, em especial, nos poemas “O Deus Verme” e “Psicologia de um Vencido”. Em “Deus Verme” há, entre outros elementos, a contaminação mútua de som e sentido, levando à possibilidade de leitura de: dEUs-VER-ME, estabelecendo um eu-poético que se define (se “vê) verme, matéria no mesmo plano de equivalência com Deus.
A partir da leitura do poema “Psicologia de um Vencido”, Jorge Luiz Antonio destaca a lógica teleológica às avessas na poesia de Augusto dos Anjos. Ou seja, a noção de que todas as coisas estão ligadas num sistema de relações entre meios e fins, porém, no caso da linguagem poética anjosiana, essas ligações são díspares. Desse modo, a ligação matéria-espírito e, conseqüentemente, a ligação homem-Deus, é rompida.
A noção de algo inconcluso e a utilização do corpo num processo artístico de pós-produção, ou seja, de produção a partir do já produzido, insere o poema de Antunes numa rede de significações, em vez de posicioná-lo como forma autônoma original. Nesse sentido, Nicolas Bourriaud comenta, em referencia à Giles Deleuze, que as práticas artísticas contemporâneas procuram se inserir nos inúmeros fluxos de produção, uma vez que as coisas e os pensamentos “crescem ou aumentam” pelo meio, sendo aí que o artista deve se instalar. Nesse contexto, o pesquisador conclui, a pergunta artística não é mais “o que fazer de novidade?”, e sim: “o que fazer com isso?”. Em outras palavras, como produzir singularidades, como elaborar sentidos a partir da massa caótica de objetos, nomes, referências etc. que constituem o nosso cotidiano?
