A subjetividade lírica
Agosto 16th, 2009 de Patrícia
Patrícia Ferreira, 2003, óleo sobre tela
A problemática em relação ao sujeito lírico é derivada da herança filosófica e crítica do Romantismo alemão difundindo-se, posteriormente, na Inglaterra, em seguida na França até alcançar toda a Europa. Os românticos alemães re-elaboram, de um modo geral, a tripartição clássica dos gêneros de acordo com uma distinção entre as pessoas “eu”, “tu” e “ele”. Assim, a poesia lírica, marcada essencialmente pela subjetividade, é centrada, pelos românticos alemães, preponderantemente na primeira pessoa; a poesia dramática, considerada objetiva, é centrada na segunda pessoa e a poesia épica vista sobretudo como objetivo-subjetiva, é centrada na terceira pessoa.
A Estética de Hegel sintetiza o pensamento romântico trazendo à poética moderna o ideal da lírica como essencialmente subjetiva, ou seja, aquela em que o poeta expressa a sua experiência individual. O poeta lírico, segundo Hegel, deve separar-se da objetividade buscando refúgio para o espírito em si mesmo, podendo, desse modo, dar satisfação à necessidade que sente de exprimir, não a realidade das coisas, mas o modo em que elas afetam a sua subjetividade.
De modo similar, T. S. Eliot, no ensaio “As Três Vozes da Poesia”, refere-se à poesia lírica como a voz do poeta que fala consigo mesmo ou com ninguém. Eliot distingue a poesia lírica da poesia épica, uma vez que na épica a voz do poeta dirige-se a uma platéia, e da poesia dramática, em que a voz do poeta cria uma personagem dramática. Os dois teóricos assemelham-se pela atitude negativa que demonstram em relação à lírica. Para Hegel, “como na poesia lírica quem se exprime é o indivíduo, este pode muito bem contentar-se com o conteúdo mais insignificante”. Já Eliot, que se vê um poeta épico e dramático, considera toda poesia lírica como poesia confessional.
O ponto de vista de Eliot reflete uma vontade de despersonalização, segundo a terminologia de Hugo Friedrich (1978), a partir da tentativa de separação entre o eu-lírico e o eu-empírico. Goethe, de maneira oposta, expõe o problema da relação entre poesia e verdade vinculando toda criação à experiência vivida. Na verdade, como aponta Hugo Friedrich, em Estrutura da Lírica Moderna, depois de Baudelaire há uma ampliação da separação entre sujeito lírico e sujeito empírico. Começando com Baudelaire e passando por Mallarmé e Rimbaud, entre outros, o sujeito lírico se despersonaliza frente à desrealização do mundo. Nietzsche também contribui para a separação entre sujeito lírico e sujeito empírico. Para ele, o sujeito no lirismo puro se parece com uma máscara e tende mais para um “ele”. Percebemos, desse modo, que as reflexões sobre a lírica acabam deslizando numa dificuldade em relação à articulação entre o sujeito real (auto-biográfico) e o sujeito lírico. Nesse sentido, o que podemos observar é que o sujeito lírico é, acima de tudo, um sujeito problemático.
O Romantismo foi marcado por um duplo postulado em relação ao “eu” do artista que, de um lado, o exalta e, de outro, o dilui no todo cósmico. A problematização em relação à subjetividade é ampliada no mundo moderno por influência do pensamento de Baudelaire e Nietzsche, entre outros. Essa é uma tensão que perdura até hoje. No artigo “Considerações anacrônicas: lirismo, subjetividade, resistência”, Célia Pedrosa comenta que “até hoje, lirismo serviria para identificar um movimento icariano de elevação e simultânea devoração da subjetividade”. Podemos concluir, assim, que o sujeito lírico é sempre um sujeito problemático em busca de uma identidade e que, conforme Dominique Combe, sua autenticidade está nessa própria busca.
