Das Técnicas à Emergência das Tecnologias

Janeiro 23rd, 2010 de Patrícia

morcegooo - morcegooo

Patrícia Ferreira - Texto Morcego I - Colagem digital


Como já dizia o velho Marshall McLuhan, no seu indispensável ensaio Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem, “o meio é a mensagem”. Tendo em vista esta noção, o pesquisador nos mostra que um meio só pode ser traduzido por outro meio. Desse modo, podemos afirmar que o conteúdo da escrita é a fala e, por sua vez, o conteúdo da fala é um processo de pensamento individual. Seguindo as considerações de McLuhan, o poeta Antonio Risério enfatiza que toda poesia possui um caráter artificial, pois nasce de uma artificialização estética da linguagem. O caráter artificial da poesia é decorrente da incapacidade da escrita materializar o pensamento de maneira satisfatória. É como se existisse um conjunto de imagens no nosso cérebro, mas, para que ele se materialize, é preciso que a mão se movimente. A mão em movimento precisa dominar um ritmo e uma técnica de inscrição. De fato, das primeiras inscrições em osso à escrita linear como conhecemos hoje, não existe inscrição sem técnica.

Da oralidade inicial ao desenvolvimento das primeiras técnicas que conformaram arbitrariamente a escrita, os poetas sempre estiveram prontos para explorar as novas possibilidades da palavra. Na Modernidade, com Mallarmé, esse impulso do poeta em direção ao desconhecido passa a ser concebido, como diz Bathes, como um desejo pelas utopias de linguagem. No caso de Mallarmé, este desejo se materializa na forma do poema como uma galáxia de signos. Uma galáxia que envolve a idéia da página em branco se impondo como um desafio diante do poeta. Agora, no mundo contemporâneo, ou seja, na cultura informatizada, seria muito ingênuo pensar que os poetas não partiriam para encarar o signo verbal convertido em bits. Acreditamos que a poesia resiste desde as primeiras técnicas de inscrição à emergência das tecnologias contemporâneas com grande vitalidade.

O grande poeta português Ernesto Manoel de Melo e Castro, testemunha por experiência própria que, agora, quando o poeta atual não está mais diante dos desafios impostos pela página em branco, passa a enfrentar suas próprias habilidades de operar equipamentos tecnológicos. Isso demonstra que o poeta está freqüentemente para além das fronteiras do que é geralmente aceito como possível. Para Melo e Castro, ao se apropriar das tecnologias recentes para produzir sua arte, o poeta não está apenas lançando mão de uma nova espécie de ferramenta, ele está, na verdade, descobrindo uma percepção poética diferenciada.

Podemos deduzir que pelo menos algumas formas de arte tenham aparecido no mundo a partir das primeiras técnicas que permitiram a materialização de imagens e/ou sinais sobre determinados suportes. Este aspecto material da arte, composto por variáveis físicas, é o que torna visível, armazenável e circulável algo que de outra forma só estaria restrito ao pensamento e ao momento. É isso que permite com que a arte seja mantida na forma de objeto que perdura no tempo. O meio, então, é o veículo pelo qual a arte se concretiza.

No caso da literatura, é possível dizer que sua origem está nas primeiras inscrições em pedra ou argila usadas para nomear os falecidos em suas tumbas. Essas inscrições revolucionaram a comunicação, uma vez que propiciaram a possibilidade da interação na ausência de um emissor. Isso se deu graças à possibilidade de transpor a fala (som) para a escrita (imagem).

A Antigüidade Clássica empregava dois termos para designar o que atualmente se engloba dentro do vasto conceito de arte. O termo tékne significava a atividade de produção manual de objetos a partir do conhecimento, habilidade e posse dos instrumentos necessários para realizar tal produção. A escultura e a pintura eram consideradas produtos da tékne, assim como eram consideradas outras atividades que hoje chamamos de artesanato. Atividades como a música, a dança e a poesia não se incluíam nesse conceito, mas se reuniam sob o termo mousiké.

A doutrina aristotélica das quatro causas estabelece a existência de uma causa material constituída pela matéria com que se fabrica algo, uma causa formal determinada pela forma em que entra a matéria, uma causa eficiente responsável pela produção do efeito ou do objeto e uma causa final, ou a finalidade, que determina forma e material. Desse modo, a obra como ponto objetivo intencional de um esforço de trabalho regulamentado, é liberada da associação com o fazer da fabricação.

A arte, dentro desse conceito geral, distingue-se das artes mecânicas, no sentido da produção artesanal e industrial, pela noção do fazer imitativo. Tal imitação não significa uma cópia instantânea da natureza como observamos na concepção moderna do realismo ou do naturalismo. Para os gregos, a obra, por definição, destina-se ao uso, mas sua estreita relação com a Físis, a natureza, lhe atribui um caráter peculiar. A arte só é possível, nessa concepção, porque a natureza deixa algo de sobra a ser configurado pelo espírito humano. Nesse contexto, a obra não é “realmente” o que ela representa, mas ela se funde imitativamente com seu modelo.

As quatro causas, conforme estabelece Aristóteles, levam algo ou alguma coisa ao seu “manifestar-se”. Para os gregos, a causalidade era o mesmo que Heidegger chama “fazer-vir”, ou seja, o que passa do não-presente ao presente. A obra de arte, nesse sentido, assume uma dimensão quase religiosa. Podemos dizer que a arte não possui uma utilidade real, mas que é preenchida quando observada demoradamente. A noção do preenchimento a partir da “observação demorada” é, aparentemente, dominante até hoje e contrapõe-se à noção da “percepção distraída”, que se diz característica da obra de arte atual em que a reprodutibilidade técnica é constitutiva.

A materialidade da arte é determinada pelos meios técnicos e, sobretudo, no mundo contemporâneo, pelos meios tecnológicos utilizados na sua produção. A Revolução Industrial marca a intensificação no uso de técnicas, com máquinas capazes de ampliar a força física do homem, e também marca a emergência das tecnologias, com o surgimento de instrumentos sensórios como a câmera fotográfica. Nesse momento histórico se dá o fim da exclusividade do artesanato nas artes e o surgimento das artes tecnológicas.

Sabemos que a técnica se define por um “saber fazer” que reúne tanto a capacidade intelectual do ser humano quanto os procedimentos ligados a esse “saber fazer”. Já a tecnologia surge quando um equipamento tecnológico envolve, fora dos limites do corpo humano, um saber técnico ou conhecimento científico sobre habilidades técnicas específicas. Tomando a escrita como exemplo, percebemos que os dispositivos técnicos usados para realizá-la são caracterizados por objetos que funcionam como prolongamentos dos gestos do corpo humano. Já os equipamentos tecnológicos, como a máquina fotográfica, possuem um saber técnico intrínseco a sua própria estrutura.

Para alguns estudiosos, a história da arte não se restringe a ser apenas a história das idéias estéticas. Ela é, acima de tudo, a história dos meios que dão expressão a essas idéias. Seguindo esta lógica, observamos que, entre outros períodos da arte ocidental, a arte grega é marcada pela cerâmica e pela escultura, o Renascimento pela tinta a óleo, o século XIX pela fotografia etc. Walter Benjamin, em A Obra de Arte na Época de Sua Reprodutibilidade Técnica, por sua vez, procurou compreender o modo pelo qual as técnicas de reprodução artística afetaram não apenas a noção de autenticidade das obras, mas também a própria noção de arte.

No caso da poesia, como nos lembra McLuhan, a publicação poética significava a leitura, ou canto, de poemas para uma reduzida platéia. Vale lembrar que Platão alegava que a escrita transformaria a cultura para pior, substituindo o pensamento pela reminiscência e colocando o aprendizado mecânico no lugar da dialética verdadeira da indagação viva da verdade processada pelas vias do discurso e da conversação.

Contudo, a difusão da escrita não teve repercussões tão pessimistas. A partir do século XVII, com o aparecimento da página impressa, a poesia passou a contar com a possibilidade da mistura de visão e som. Do aparecimento inicial da escrita ao surgimento da escrita mecanizada, no século XVII, observa McLuhan, ouve uma rápida redução do hábito do discurso oral, estabeleceu-se o predomínio das interpretações individuais sobre o debate público, surgiu a figura do leitor solitário e ampliou-se o espectro da leitura disponível.

Na passagem do século XIX para o século XX, os poetas passaram a utilizar a máquina de escrever. Entre outros fenômenos, a máquina de escrever, com sua capacidade de fundir composição e publicação, transformou a atitude dos escritores em relação à palavra escrita e impressa e isso, conseqüentemente, alterou não apenas as formas da linguagem, mas, também, da literatura. Isso, como enfatiza McLuhan, é observado nos últimos romances de Henry James e nos escritos de Eliot, Pound e, sobretudo, nos poemas de e. e. cummings. A própria grafia que o poeta americano e. e. cummings adota para escrever o seu nome, apenas com tipos em caixa baixa, é um reflexo do impacto da máquina de escrever em sua subjetividade.

A existência da máquina de escrever alterou ainda as formas da linguagem de escritores que simplesmente passaram a ditar seus textos para datilógrafos. Nesse sentido, o escritor Henry James relata em seu livro de memórias que, em seus últimos escritos, deixou de escrever à mão e passou a ditar seus textos para uma datilógrafa, causando uma espécie de aumento da intensidade afetiva na produção de seus textos. Em vez de criar seus textos utilizando o teclado da máquina de escrever, James ficou livre do esforço manual, passando a lidar com o próprio fluxo natural da fala.

Mário de Andrade, no poema “Máquina de Escrever”, de 1922, também reflete sobre a modificação de percepção que se tem na passagem da escrita manuscrita para o texto impresso. No poema “Máquina de Escrever”, o poeta explora o ritmo poético, possibilitado pelo uso da máquina como, por exemplo, nas quebras e nos cortes dos versos, nos recuos e nos enjambements. A máquina de escrever aparece, no poema de Mário de Andrade, como instrumento potencializador de um novo fazer poético, mas tal novidade não é recebida sem críticas. Um dos problemas trazidos pela máquina de escrever, como Mário de Andrade destaca, é o fato da caligrafia manuscrita do poeta deixar de imprimir a personalidade individual do autor. Em seu lugar, o que se configura, é a digitalização mecânica e automática dos dedos do poeta sobre as teclas da máquina:

B D G Z, Remington.
Pra todas as cartas da gente.
Eco mecânico
De sentimentos rápidos batidos.
Pressa, muita pressa.
Duma feita surripiaram a máquina-de-escrever de meu
[mano.
Isso também entra na poesia
Porque ele não tinha dinheiro pra comprar outra.

Igualdade maquinal,
Amor ódio tristeza…
E os sorrisos da ironia
Pra todas as cartas da gente…
Os malévolos e os presidentes da República
Escrevendo com a mesma letra…
Igualdade
Liberdade
Fraternité, point.
Unificação de todas as mãos…

É interessante notar que o erro, da escrita datilografada, também é incorporado ao poema. Isso pode ser comparado ao modo em que a poesia moderna buscava incorporar, segundo as palavras de Oswald de Andrade, em seu Manifesto da Poesia Pau-Brasil, a “contribuição milionária de todos os erros” do falar cotidiano:

A interjeição saiu com um ponto fora de lugar!
Minha comoção
Se esqueceu de bater o retrocesso.

Apesar de todas as críticas sabemos que o surgimento de novos meios não implica necessariamente no desaparecimento dos anteriores. Ao contrário, um dos desafios que passa a se impor ao artista é o de criar novas formas para revitalizar os meios e as linguagens do passado. No entanto, como cada época apresenta novos meios de produção artística, o artista também se vê diante de novos desafios no enfrentamento da resistência dos novos meios até encontrar as linguagens que lhes são próprias.

Em termos de tecnologia, o mundo tem vivido, nas últimas décadas, a chamada revolução digital. Não falamos aqui apenas do surgimento da escrita computadorizada, que já é suficiente para revolucionar o processo de criação poética. Mas, sim, falamos de uma tecnologia capaz de produzir um texto “verbivocomotovisual”, como diriam os concretistas, aberto à interação com o leitor. Estamos diante de uma tecnologia capaz de converter qualquer linguagem, seja texto, imagem, som, vídeo, em dado digital. Melhor dizendo, em bits (0-1).

Podemos dizer que cada bit, ou seja, cada sinal digital, é um minúsculo permutador entre linguagem e número, o que possibilita a passagem da linguagem ao número e vice-versa. A revolução digital se confunde ainda com a revolução informacional e a das comunicações. A possibilidade de conversão de qualquer linguagem para bits, juntamente com a facilidade dos dados digitais serem comprimidos e transmitidos em questão de segundos, afeta diretamente os processos de produção artísticos atuais.

A chamada “era digital” tem provocado mudanças que ainda não somos capazes de imaginar. No entanto, certamente, essas mudanças terão conseqüências antropológicas muito mais profundas do que foram as da Revolução Industrial. Novas maneiras de interagir, pensar e conviver estão sendo elaboradas nesse novo mundo das “tecnologias da inteligência” que se desenvolvem nas redes de comunicação, como descreve Pierre Lévy. Precisamos tentar compreender esse universo ainda indeterminado.

As tecnologias digitais afetam o homem e as instituições. Segundo Félix Guattari, as tecnologias de produção de imagem numérica aliadas ao campo social, econômico, cultural e científico promovem espaços de múltiplos agenciamentos capazes de empreender sua marca no imaginário de uma época, produzindo transformações na subjetividade humana, tendo em vista uma concepção de subjetividade que ultrapassa a oposição tradicional entre sujeito individual e sociedade. Para Guattari, o que está para além dessa oposição se configura num mundo de redes entrelaçadas, entre humanos e máquinas, que colocam até mesmo os limites do nosso corpo em questão.

A pesquisadora Suzete Venturelli ressalta, em referência às idéias de Mário Costa, que a nova relação com a tecnologia transforma a nossa cultura além de favorecer uma abertura para novas formas de subjetividade. Venturelli comenta que, com as novas tecnologias, o ser humano deve necessariamente funcionar de maneira diferente. A passagem da técnica à tecnologia representa, segundo a autora, uma forma de “mutação antropológica”. A criação estética com as novas tecnologias é diversamente subjetiva, o que significa que a obra está além de uma expressão individual e tende à criação impessoal e ultra-subjetiva.

A produção artística tecnológica gera, na concepção de Diana Domingues, uma nova mentalidade em que a utilização de dispositivos tecnológicos vai além do prolongamento dos sentidos, como propôs McLuhan. O diálogo entre os seres humanos e os softwares, segundo a pesquisadora, dá origem a processos cognitivos e mentais em parceria com os sistemas, resultado da fusão de sistemas naturais inteligentes com sistemas artificiais inteligentes.

Concluímos este ensaio lembrando que a tecnologia é, hoje, o principal elemento de reorganização social, política e cultural no mundo. No entanto, ela não é uma estrutura imutável e isolada dos seres humanos. Os efeitos da tecnologia sobre os seres, como diz McLuhan, não ocorrem aos níveis das opiniões e dos conceitos; eles se manifestam nas relações entre os sentidos e nas estruturas da percepção. Assim, somente o artista sério é capaz de enfrentar, impune, a tecnologia, porque ele é um perito nas mudanças da percepção humana.


(Patrícia F. da Silva Martins - 2010)

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