Arte e Mídia: Descentrando o Discurso Dominante
Di(per)versões Eletrônica - Patrícia Ferreira, Frederico Martins e Wilton Moreira
A reflexão sobre as relações entre o processo de industrialização e o desenvolvimento dos meios de reprodução dos signos icônicos na cultura contemporânea torna-se cada vez mais relevante, sobretudo, no campo artístico atual. Nesse sentido, como Guy Debord já nos alertava em seu indispensável ensaio La Société du Spectacle (Paris, Gallimard,1992), não se pode pensar a contemporaneidade sem considerar o processo de espetacularização das imagens provocado pelo poder da mídia e da tecnologia visual. Este processo, para o pesquisador, transforma em anacrônicas as relações entre realidade e representação e verdade e simulacro. O processo de alienação que emerge da lógica da aparência institui na sociedade um mecanismo de positivação e de aceitação passiva do visível: “o que aparece é bom, o que é bom aparece” (DEBORD, 1992, p. 20). Esta crítica é indissociável da relação entre o capitalismo de mercado e a produção de simulacros, considerando que a economia atual cresce à proporção que produz a alienação através do espetáculo.

Um ponto de partida para a abordagem desse tema tão complexo encontra-se no livro Fetichismo, Cinema e Cultura de Massa: Elementos da Indústria Cultural, de Erisvaldo Souza e Jean Isídio (Brasília, Ícone, 2009). Os pesquisadores, neste conjunto de artigos ligados pelo mesmo fio condutor, partem do pressuposto de que a indústria do entretenimento, em termos globais, cria e faz circular produtos para o consumo de todas as classes sociais com os objetivos perversos de alienação e massificação. Nesse contexto, segundo os pesquisadores, o fetichismo, ou seja, a transformação do produto cultural em mercadoria, nos termos de Theodor Adorno, deve ser desestabilizada pela disseminação de uma produção artística diferenciada e descentrada em relação à cultura capitalista dominante. O ponto de vista otimista dos autores sobre a possibilidade dessa produção artística diferenciada na atualidade vai ao encontro dos anseios de um grupo cada vez maior de artistas que lidam com as mídias eletrônicas e digitais.
A proposta de desestabilização do fetichismo, de Souza e Isídio (2009), ecoa algumas considerações de Walter Benjamin, no texto A Obra de Arte na Época de Sua Reprodutibilidade Técnica (São Paulo, Paz e Terra, 2002, p. 217-256). Benjamin considera que as tecnologias visuais influem sob as formas de recepção de modo não apenas alienante, mas, acima de tudo, revelando as tensões do nosso tempo. Para o pesquisador, os menores gestos do cotidiano podem ser ressignificados através da imagem com seus cortes e separações, “com suas subidas e descidas, suas extensões de campo, acelerações, ampliações e reduções” (BENJAMIN, 2002, p. 247). Com a introdução da técnica cinematográfica, comenta Benjamin, nos é aberta uma experiência de um inconsciente visual, assim como a psicanálise nos oferece a experiência do inconsciente instintivo.
Uma importante proposta no sentido de desestabilizar o poder alienante da mídia de massa emerge com a videoarte. Nos Estados Unidos, o movimento videoarte, nas décadas de 1960 e 1970, envolvia não somente o vídeo, mas também o uso do computador, da holografia e de muitas outras tecnologias. Os idealizadores do movimento, entre eles, John Cage, William Burroughs e Michael Shamberg, estavam interessados em utilizar as tecnologias para desestabilizar a hegemonia da mídia, como já propunha Bertolt Brecht em relação ao sistema radiofônico alemão. No entanto, antes mesmo de que os experimentos com o vídeo pudessem demonstrar sua eficácia, a imagem eletrônica já começava a se integrar a outras linguagens, como a do cinema e a da fotografia. Desse modo, todos os experimentos, nesse contexto, foram incorporados à noção de multimídia.
Apesar dos esforços de diversos artistas ao redor mundo, as artes produzidas com o uso das mídias eletrônicas e digitais são alvo de inúmeras críticas, sobretudo, no que se refere à utilização da televisão. Em geral, é dito que as mídias eletrônicas determinam a velocidade do processamento da informação, e, portanto, a razão estímulo-resposta. Porém, o uso das tecnologias eletrônicas para criação artística, retira o espectador de um estado de passividade e possibilita seu posicionamento crítico diante da obra. Isto ocorre, principalmente, quando elas são utilizadas de modo subversivo e inesperado, rompendo os padrões e normas tácitas estabelecidos entre receptor e emissor pelos mass medias. O estranhamento e a ruptura da relação padrão entre receptor e emissor pode ter o potencial de anular a passividade deste último, obrigando-o a algum tipo de reação crítica, mesmo que seja a irritação ou a rejeição da obra. Em todo caso, o uso anormal (artístico) de canais saturados pela repetição pode provocar uma tomada de consciência em relação às mídias eletrônicas e seus possíveis usos alternativos que fogem à massificação.
Antes mesmo da mídia eletrônica ser reconhecida como campo de possibilidades para a expressão estética, como observa Arlindo Machado, em Arte e Mídia (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2008), alguns artistas como Wolf Vostell e Nam June Paik já desconstruiam os sintagmas televisuais em instalações ao vivo ou através do registro em suporte cinematográfico. Pode-se dizer que a desestabilização dos signos visuais e sonoros da televisão, o recorte e a desmontagem de seus programas ou até mesmo de seus ruídos naturais, constituem a matéria da maior parte das pesquisas artísticas em vídeo. Por essa razão, pode-se dizer que a televisão tem sido o referente mais freqüente da videoarte nos seus mais de 40 anos de existência.

O que vemos, atualmente, é que a arte experimental caminha na direção de processos e estruturas cada vez mais abertas. Ao buscar o envolvimento do espectador, ou da audiência, diversas obras recentes demandam o surgimento de espectadores ativos, capazes de entender e de completar o processo criativo experimental. Em geral, a ação do participante, nas obras eletrônicas e digitais, é programada de diversas maneiras; ele pode receber instruções para o controle de funções ou mesmo pode aparecer fisicamente dentro da obra.
Podemos concluir, em sintonia com a atitude otimista de Souza e Isídio, que é possível considerar meios eletrônicos e digitais como o computador, a Internet e a Web, como capazes de proporcionar mais abertura ao espectador, uma vez que este também pode decidir quanto tempo vai dedicar de sua atenção às informações às quais é exposto. Para alguns estudiosos, a duração da atenção do espectador, por exigir estratégias de leitura e de visualização, em certo sentido individuais, pode até mesmo melhorar a qualidade da atenção das pessoas.
Patrícia Ferreira da S. Martins - 2010
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